O que a crise do COVID-19 significa para nós? Jovens brasileiros estão falando

O que a crise do COVID-19 significa para nós?Jovens brasileiros estão falando

Histórias compartilhadas pela Campanha Brasileira pelo Direito à Educação.

Invista e acredite na Educação Pública!

No ano de 2020 surgiu um vírus que nos abalou em escala mundial. No Brasil, a pandemia se alastrou de forma rápida. Em meio a distanciamentos sociais, medidas (ou falta delas) governamentais, as diversas áreas que compõe a nossa sociedade foram se adequando, cada um à seu modo. Serviços não-essenciais fecharam, desemprego bateu à porta de diversos trabalhadores, e o povo finalmente aprendeu a valorizar profissionais da saúde.

Com uma preparação coberta de incertezas sobre o momento que seria vivido pela nação, as instituições de ensino foram fechadas. De creches até universidades.

Eu, enquanto estudante do Ensino Médio, jovem, tento entender o que vivemos, todas as crises que o país passa (sendo elas: sanitária, política e econômica), o ensino me foi retirado. Com incertezas de retorno, a colocação se teríamos alguma forma de estudo, os estudos para o tão aguardado ENEM. Tudo isso paralisado por tento indeterminado.

Os estudantes da escola pública sempre foram atrasados quanto ao ensino. É inegável a defasagem sofrida pelos estudantes quanto a conteúdo. Antes mesmo da pandemia sofríamos com falta e trocas constantes de professores, a falta de reparos na estrutura, até mesmo atraso e falta de materiais. O atual governo considera investimentos em educação como despesa, tanto que houve congelamento de verba nessa área no ano passado.

Há muitas questões que envolvem o Estudo A Distância. De recursos importantes como celulares, computadores, internet, até condições psicológicas, financeiras e econômicas. Muitos estudantes sofrem com falta de alimento, ou com casas em estado precário. Todas essas coisas, ignoradas pela atual gestão do Estado.

A má convivência, a falta de espaço e/ou privacidade, todo o conforto que a casa pode oferecer, tarefas dentro da própria casa. Todas essas coisas contribuem para que o aluno se disperse e até mesmo se esqueça de suas tarefas acadêmicas. Muitas vezes, o ambiente escolar é visto como refúgio para muitos alunos que encontram dificuldades na convivência com quem moram. Isso influi muito, pois acaba incapacitando o aluno.

Até mesmo cabe falar aqui as dificuldades que jovens e adolescentes encontram para lidar com seus próprios sentimentos, ao tentar entender o momento vivido, suas transformações enquanto ser humano, e novamente, o ambiente familiar em um momento de convivência e confinamento extremos.

Tudo isso tem importância ao levantar o debate sobre o ensino a distância nas escolas públicas. É importante, além dos alunos, os professores. Muitos, por idade, ou falta de prática com veículos de mídias tecnológicas demoram a se adaptar com uma nova ótica de ensino, sob um momento extremamente delicado. Ambas as partes precisam de um processo de adaptação, que muitas vezes é negligenciado pela pressa que se tem para conclusão do primeiro bimestre.

Estar em casa confinado, com a missão de estudar em meio a todas as situações citadas a cima se torna uma tarefa praticamente impossível. É muito difícil manter a concentração, entender coisas somente por textos, pois muitas vezes temos o conteúdo, mas não recebemos explicações. A Escola Pública tem resistido em um momento crítico do país, com todas as crises. O adiamento do ENEM foi um suspiro de alívio no meio estudantil. Mas não se pode esquecer que estudantes com boas condições sociais, não foram afetados. Pois têm uma boa estrutura de estudo. A propaganda do ENEM desse ano, foi exclusiva para esse público, que têm condições, gerando polêmicas. E justamente nesse momento a Escola Pública se levanta. Não só não podemos, como não devemos aceitar esse tipo de coisa. Frases como “uma geração de novos profissionais será perdida”, “estude de qualquer forma, de qualquer lugar”. Esse tipo de mídia não alcança a todos os estudantes, uma vez que, repito, o Ensino a Distância não é igualitário, é inegável a defasagem que é sofrida por estudantes da Escola Pública.

Discursos como esses só fortalecem o discurso méritocrático que nos é imposto há anos. Não vivemos em um país que promove a equidade, e sim a exclusão.

Com isso, posso dizer, a Escola Pública enfrente muitas dificuldades, é inegável sua importância, e, que há muito potencial em muitos do que a frequentam. A Escola Pública nos dias de hoje representa resistência, e acredito que, luta como nunca se fez antes.

Que essa pandemia sirva para que, vejam como a Escola Pública precisa de melhorias, de INVESTIMENTO, pois sem ela nada se faz.

Sem professores não há nenhuma outra profissão.

Sem o ensino acadêmico nada se pode fazer.

Reconheçam o serviço prestado pelo Ensino Público.

Valorizem o Ensino Público.

E por último, mas não menos importante: Invistam e acreditem no Ensino Público.

Kaylane da Silva Ribeiro, estudante do Ensino Médio de Guarulhos, da escola Vereador Antônio de Ré.

Mas agora, que sabe, pudessem pensar, em nós não apenas como estudantes ou máquinas, e sim como pessoas…

Olá, meu nome é Ana Caroline, estou sem aulas presenciais desde o dia 19/03. No início não achei que seria tão desafiador assim as aulas EAD (estudo à distância), achei que iria tirar de letra tudo, mas não foi bem assim…Logo quando os professores começaram a mandar as matérias, me senti desafiada a fazer tudo durante o mesmo tempo que faço nas aulas presenciais, pois realmente achei que daria conta.

Fui tentando me adaptar a isso e essa ideia de fazer tudo no mesmo tempo e nos horários de costume, pois não queria me desfazer da minha rotina. As primeiras duas semanas foram super boas, mas a partir daí, começou a vir muito mais coisa e já não estava dando conta de fazer nos horários que eu havia planejado; então comecei a dividir as matérias ao longo dos meus dias…até que deu certo, mas não por muito tempo; pois já não estava dormindo direito, com a preocupação de que eu precisava terminar rapidamente tudo, mas quando eu menos esperava, a escola já mandava mais coisas.

Com tudo isso, comecei a ficar muito ansiosa, e não estava mais tendo nenhuma rotina, pois passava o dia e a noite resolvendo coisas para as aulas, resolvendo trabalhos, e principalmente tentando provar para mim mesma que estava tudo certo, sendo que não: eu já estava sem rotina nenhuma. Quando fechou um mês de aulas EAD, perguntei para os meus colegas se era apenas eu que estava tão ansiosa assim, e foi ali que tive a surpresa: não era só eu. Realmente não estava sendo nada fácil, pelo menos, não como eu imaginei.

Então conversando com eles, resolvemos mandar um e-mail para a escola, pedindo que desse mais tempo para a gente mandar as atividades e trabalhos, e a resposta que recebemos não foi nada boa, eles nos disseram que não podia fazer nada, pois aquelas mesmas matérias que nós ganhamos em aulas EAD, seria as mesmas que se estivéssemos em aulas presenciais. Nisso começamos a nos questionários, se realmente seria. Era muito mais coisa do que a carga horária, mas mesmo assim continuamos a fazer as atividades.

Nunca tive minha ansiedade tão à flor da pele, pois queria entregar tudo o quanto antes, e não queria entregar de qualquer jeito. Conversei com alguns dos meus professores, e fiquei sabendo que talvez as aulas EAD seriam suspensas. Em primeiro momento fiquei mais calma, mas depois comecei a pensar… “o que eu vou fazer agora?”, pois a ansiedade já tinha me dominado, e comecei a ter mais crises de ansiedade.

Depois de umas duas semanas que conversei com meus professores e soube da ideia de que talvez as aulas EAD seriam suspensas, tivemos a notícia que era verdade, e que não teria data de volta, achei que seria um alívio, sinceramente! No início foi, tive tempo para voltar a ter uma rotina, e a minha ansiedade sumiu novamente, mas hoje, sinto falta das aulas, tanto as presenciais quanto as EAD, mas é claro, que se as aulas EAD voltassem gostaria muito que analisem elas novamente; que as planejem com mais cuidado para que nenhum estudante sofresse como nós sofremos, com medo de achar que não daríamos conta, por virar a noite e dia fazendo trabalhos, sem sair do quarto, sem uma rotina. Talvez ninguém tinha noção disso tudo, mas agora, que sabe, pudessem pensar, em nós não apenas como estudantes ou máquinas, e sim como pessoas…

Pensar que tudo isso pode afetar muito o nosso dia a dia, o COVID-19 nos pegou de surpresa, mas não é por isso que nós devemos nos distanciar de tal maneira a esquecermos que todos nós somos seres humanos, em constante evolução e processo, que precisamos nos extravasar às vezes, e principalmente não podemos perder a nossa conexão e a nossa essência, que são essenciais para uma mudança. A sociedade não se muda de cima para baixo, e sim, olhando para o lado e vendo pessoas melhores a cada dia, pois eu, Ana Caroline, acredito na evolução, quando todos nós evoluímos juntos.

Eu entendo que esse momento de pandemia está afetando a todos nós, mas, que mesmo de longe, a gente consiga se conectar de alguma forma, tanto nós como pessoas, quanto nós, em sociedade.

Ana Caroline da Costa Marques, 16 anos, segundo ano do ensino médio na Escola Estadual de Ensino Médio Firmino Acauan.

Nem todos!

O início de 2020 foi semelhante aos demais, um ano que muitos acreditavam que seria melhor do que todos os outros anos, onde víamos muitas tragédias na televisão. E no fim não foi bem como pensamos.

Janeiro foi um mês a qual estávamos em férias ainda, ansiosos e ao mesmo tempo inseguros com as mudanças. Muitos que se formaram estavam com receio de como seria o ensino médio, por justamente ter mudanças radicais. A escola nova, o distanciamento de diversas pessoas do fundamental, o baque de conhecer pessoas novas, ter matérias novas e a pressão de todo o acúmulo, pois é estressante perceber que tudo isso e normal.

Infelizmente antes de mesmo aprender a lidar com todas essas situações novas e inesperadas, tivemos mais uma mudança. Televisões e jornais apresentavam um possível risco vindo de um vírus. E então começamos a ouvir, de um lado que tudo aquilo era passageiro, que era jogo do governo e do outro lado, que os fatos eram sérios e que pessoas estavam morrendo todos os dias, causando uma enorme confusão nos pensamentos.

Nossos dias ficaram diferentes; “Sem toque”, “sem dividir as coisas, como utilizar a garrafa”…Novas formas de aprender na sala de aula, sem divisão e toque. Com o passar dos dias, a consciência de todos foi pesando, afinal, pessoas estavam morrendo, e por mais que uma minoria ainda ignorasse esse fato, muitos cumpriram seu papel corretamente. Os abraços, os beijos e os amigos que estavam ao lado deram lugar ao álcool gel.

O medo tomou conta de cada um, pois somos jovens e fazemos parte dos “3%” que podem ser contaminados, devido à idade e a imunidade. Medo de fazermos parte do número de pessoas que são motivos para os médicos decidirem entre a nossa vida ou a morte. Começamos a ser movidos por medo, medo de pegar e contaminar nossos entes, medo de alguém importante se contaminar e ver partir. Tudo virou medo!

Então; as aulas, empresas e pessoas pararam. Tudo parou! E com a evolução da quarentena, pudemos perceber o quão bem fez ao nosso meio ambiente o ser humano estar fora das ruas, estar cuidando de si e do outro, sem contato. O número de contaminados subiu novamente, pois muitos não levaram a sério o isolamento social e a hipocrisia de algumas pessoas apareceu e vários sentimentos foram misturados, de ajuda, de conforto, de insegurança.

O mais preocupante são as ações do presidente Jair Bolsonaro, que só faz piorar a situação, sua ignorância reflete no dia a dia dos trabalhadores e nós que vivemos na periferia, ficamos expostos a esta ignorância. Nosso país, em relação a contaminação pelo vírus, “foi ladeira abaixo”.

Mas a voz do povo foi contra a “ordem” do presidente e começamos a nos movimentar e ajudar a todos, arrecadamos cestas básicas, doações de igrejas, brechós, ações nas escolas com um olhar para o bem comum. Estamos realizando a mudança que podemos, com álcool em gel, máscara, mínimo contato, apesar de estarmos com muito medo.

Nosso país é comandado por uma voz mais forte que a nossa, e por isso mesmo sentimos tanto por não termos a vacina contra o vírus (covid-19), pois o presidente Jair Bolsonaro não contribui para as pesquisas e não acredita nela. Novamente o país paga por decisões individuais. Há um desespero, porque infelizmente nem todos tem acesso às cestas básicas, nem todos são empregados, nem todos podem ter o auxílio emergencial vindo do governo, nem todos!

Por mais que o país grite por uma ajuda, só venceremos quando todos colaborarem. Até lá, lutaremos individualmente. É importante entender que as pessoas estão morrendo, que médicos estão sobrecarregados, que alunos que iriam fazer a prova do ENEM não estão tendo aula, porque nem todos tem internet para fazer aulas ou receber as tarefas online. Nem todos!!!!!

A gente se preocupa como aluno, pois sabemos da nossa realidade. Temos dificuldades, queremos explicações, e não queremos mais trabalhos de escola que nos sobrecarregue. A nossa voz precisa ser ouvida, pois é importante entender a nossa situação, de aluno da periferia.

O Brasil tem que dar condições a todos os seus habitantes, dar condições iguais aos estudantes, sem discriminação. É hipocrisia pedir que isso tudo passe, e que queremos o normal de volta, pois o normal não voltará e todos devem fazer sua parte. Até lá, lutaremos contra o vírus, respeitaremos a quarentena, pois acreditamos na vida. Neste momento vejo o país sem esperança alguma, só vivendo um dia após o outro, esperando as próximas decisões que mudarão as nossas vidas.

Abner da Silva Bittencourt, 16 anos, primeiro ano do ensino médio na Escola Estadual de Ensino Médio Firmino Acauan.

Este blog faz parte de nossa série de blogs COVID-19, com o objetivo de destacar questões que afetam a educação, alunos e ativistas da educação em todo o mundo, incluindo populações deslocadas, educação inclusiva e de adultos. Também estamos destacando questões de perspectivas regionais na África, América Latina e vários blogs focados na juventude.

Fique ligado na nossa série de seminários on-line COVID-19 para discussões mais aprofundadas.

 



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